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ESCOLA PRÁTICA DE ARTILHARIA

Vendas Novas, 3 Maio 74

RELATÓRIO DAS ACÇOES DESENVOLVIDAS PELA ESCOLA PRÁTICA DE ARTILHARIA INTEGRADAS NO MOVIMENTO DAS F. A.
1. ANTECEDENTES

Desde a primeira hora ligada 80 M.F.A. pelos seus Oficiais do Q.P. de Arma dos escalões capitão e subalternos, foi ao longo do tempo realizada uma acção prévia incluindo: - Diversos contactos com outros camaradas ligados ao Movimento e com a Comissão Coordenadora, através das reuniões convocadas pela referida comissão a partir da realizada nos arredores de Évora (9 Set. 74) - Realização de sucessivas reuniões no âmbito da Unidade, com o objectivo de mentalização e identificação de todos com as finalidades e propósitos do Movimento - Decidida por unanimidade dos Oficiais acima referidos a participação total e activa, nas acções de força que se tornasse necessário desencadear, deu-se Início a uma fase de estudo e planeamento, compreendendo os seguintes pontos principais:
- Detenção do Cmdt e 2.° Cmdt. - Recrutamento de Oficiais do Q.C. e de Sargentos. Organização e preparação (técnico-táctica e logística) de duas Batarias de Artilharia (uma de 8,8 em e outra de 10,5 em) e duma Companhia Motorizada tipo atiradores, destinadas a actuação exterior. - Defesa imediata do Quartel. - Controle da Vila de VENDAS NOVAS, incluindo eliminação da força local de G.N.R.
- Recebida em mão a ordem de Opero em D-1, procedeu-se ao seu estudo, tendo-se tomado as disposições finais para início da acção.

2. DESENROLAR DA ACÇÃO

a. Dia 24
- Uma vez que o Cmdt e 2.° Cmdt eram elementos armados e decididos a resistir, tendo inclusivamente estabelecido previamente um sistema de Alerta através do Posto local da G.N.R., foi provocada uma reunião com aqueles Oficiais (cujo pretexto foi assentar pormenores relativos à visita do ex-ministro do Exército, General Andrade e Silva, projectada para 25 de Abril) com a finalidade de facilitar a sua detenção. Reunidos assim no Gabinete do Comandante aguardou-se a confirmação pela rádio do início das actividades; imediatamente irrompe pelo citado gabinete uma equipa constituída pelos Tenentes de Art. Andrade e Silva, António Pedro e Sales Grade, que juntamente com os outros Oficiais presentes (Capitães Mira Monteiro e Patrícia, e Tenente de Art. Ruaz e Nave) prenderam o Cor. Belo de Carvalho e o Ten. Cor. João Nascimento tendo-lhe sido na altura relatada toda a situação pelo Sr. Cap. Patrício, os quais foram conduzidos para um quarto que ficou vigiado por dois Oficiais armados. - Seguidamente, com as Centrais Rádio e telefónica já ocupadas e com as entradas do Quartel sob controle, foi exposta a situação e indicados os objectivos e finalidades do Movimento, tendo para o efeito:
- O Capitão Santos Silva chegado clandestinamente meia hora antes da B.A 3, onde se encontrava em diligência reunido os Oficias do Q.C. que aderiram na sua totalidade. (Este Oficial. na qualidade de mais antigo, havia assumido o Comando desta E.P.A.) - O Capitão Mira Monteiro teve idêntica acção junto dos Sargentos e Furriéis, verificando-se apenas a total adesão dos últimos. Assim foram detidos todos os Sargentos presentes. Também o Ten. Andrade e Silva falou aos primeiros cabos Mil. da Unidade que também aderiram unanimemente.
- Cerca das 24 horas foi organizada uma formatura geral, com a presença dos quadros decididos a actuar à qual foram distribuídas funções:
COMANDO
- Cmdt: Cap. Santos Silva; Adjuntos: Tenentes Martins C. Ruaz, Sales Grade e Sousa Brandão.
BTR ART. 8,8 em (a 6 b.f.)
- Cmdt: Cap. Oliveira Patrício; Subalternos: Tenentes Marques Nave, Almas Imperial, Pereira de Sousa e Aspirantes Mil. Tolentino e Gonçalves.
BTR ART 10,5 em (a 4 b.f.)
- Cmdt: Cap. Duarte Mendes; Subalternos: Alteres Gaspar Madeira e Formeiro Monteiro e Asp. Mil. Guerra.
COMP. ART MOTORIZADA (4 Pelotões)
- Cmdt: Cap. Mira Monteiro; Subalternos: Tenentes Andrade da Silva, António Pedro, Ribeiro Baptista, Amílcar Rodrigues e Asp. Mil. Carvalho e Salgueiro.
Reserva (3 Pelotões)
- Cmdt: Cap. Canatário Serafim; Subalternos: Tenente. Jesus Duarta e Alf. Mil. Medeiros.
b. Dia 25
(1) Armadas, equipadas e municiadas, as forças iniciaram o movimento à hora prevista na O. Oper. (3 horas), tendo a C. Art e a BTR 8,8 constituído uma coluna (de 16 viaturas militares e 1 civil transportando uma equipa de exploração) a qual alcançou e ocupou a posição de Cristo Rei, em ALMADA, pelas 7 horas. Simultaneamente com a saída destas forças, a BTR de 10,5 ocupou posições a cavaleiro das estradas de MONTEMOR-O-NOVO e LAVRE, com as missões de interdição destes eixos e de segurança próxima da Unidade.
(2) Actuação da BTR ART 8,8
- Ocupou posições de crista, permitindo-lhe bater em tiro directo, qualquer coluna que atravessasse a Ponte, ou qualquer navio no estuário do Tejo; como objectivos em Lisboa, nomeadamente o Monsanto e o Terreiro do Paço. - Cerca das 9.30 horas apontaram sobre uma fragata em movimento, conforme ordem recebida do P.C. mantendo 2 bocas de fogo apontadas até as fragatas saírem do Tejo e as restantes 4 bocas de fogo apontadas sobre Monsanto. - Não tendo sido necessária a realização de fogos, esta Unidade exerceu no entanto Importante acção de presença e de esclarecimento da numerosa população de ALMADA, tendo sempre constituído elemento capaz de, em quaisquer condições, Influenciar o desencadear da acção, pela colocação dos seus tiros nos objectivos que se revelassem.
(3) Actuação da PART MOTORIZADA
- Montou a segurança à BTR 8,8 em e estabeleceu o controle do acesso à PONTE SALAZAR
- Cerca das 9.00 horas montou um dispositivo com a finalidade de interceptar uma viatura
civil da P.M. na qual seguia Major de Cavo Manuel Cruz Azevedo, conforme ordem emanada do P .C. - Cerca das 11.30 horas ocupou posições para interceptar um DEST FZ que se deslocava para Lisboa, caso este não fizesse o sinal de código (agitação das boinas) emanado do P.C.; o referido DEST seguiu ao seu destino, tendo algum tempo. Depois passado pela posição em sentido inverso. Mais tarde pelas 14.30 horas) este mesmo DEST contactou com as NF, conforme havia sido comunicado pelo P.C., tendo ali permanecido sem qualquer acção. - Pelas 15.15 horas, a CART recebeu a missão de se deslocar à CR do GOV. MIL. LX (TRAFARIA) a fim de libertar os Oficiais pertencentes ao Movimento; esta missão foi integralmente cumprida pela libertação de 11 Oficiais ali detidos. Esta força fez-se reforçar dum seco art. guarnecendo um obus 8,8 em que, depois de cercado o forte entrou em posição frente ao portão principal e a escassos metros deste. Ordenada a rendição. o portão foi aberto prontamente. Durante a acção foram detidos na área 24 elementos da G.N.R., os quais acompanharam as N.T. à posição inicial. Os Oficiais libertados, escoltados por forças da CART seguiram para LISBOA. - Pelas 16 horas foi dada ordem para cercar e ocupar o Regimento de Lanceiros 2. Montado o dispositivo, o Cmdt da força foi contactado por elementos do R.C. 7, que informaram estar com o Movimento. Seguidamente os portões do R.L. 2 entreabriram-se dando passagem a 2 Asp. Of. que manifestaram desejo de contactar com o Cmdt da força, a quem declararam que praças, graduados do QC. e eles próprios desejavam tomar parte na acção, o que não haviam ainda feito por oposição dos seus Comandos. - Armado e com 2 Furriéis Mil. como guarda costas, o Cmdt da força entrou no aquartelamento em causa, a fim de contactar o Coronel Cmdt e saber das sua posição. Deparou com enorme confusão no bar e dependências anexas, onde se encontrava grande número de Oficiais tentando os subalternos persuadir o seu Cmdt a aderir ao Movimento. Aquele Senhor, tentando ganhar tempo, declarou ao Cmdt da força sitiante que esperava as «necessárias» . ordens daqueles que nessa altura estavam já senhores da situação. Deparou-se então a seguinte situação: .
- Oficiais subalternos desejavam tomar parte activa na acção;
- Capitães diziam aderir mas declararam Que não saíam do Quartel;
- Cmdt e Major Cruz Azevedo manifestaram-se contra o Movimento;
- Restantes Oficiais superiores mal definidos;
- O Cmdt da força teve conhecimento de que a situação de quase total indisciplina que se verificava na Unidade, se•deveria principalmente ao facto de na manhã deste dia terem estado no Quartel várias personalidades de destaque, entre as quais o Almirante Henrique Tenreiro, que foi deixado sair em liberdade.
- Foi tentado um contacto com o P.C. por RACAL-TR 28, que não foi obtida; - entretanto chegou o Major Monge com indicações relativas ao procedimento a adoptar; - A força sitiante, que já se encontrava dentro do quartel, recebeu mais tarde do novo Cmdt da Unidade indicação para ali pernoitar, o que foi comunicado à posição de Cristo-Rei.

c. Dia 26
- Pela 1.30 horas as forças da CART reuniram-se à BTR na posição, onde aguardaram ordens.

d. Dia 27
- Pelas 12 horas, as forças desta E.P.A. receberam ordem de regresso ao Quartel, tendo alcançado VENDAS NOVAS pelas 18.30 horas.
3. DIVERSOS
- Em 26 às 18 horas foi levantada a segurança próxima, pela recolha da BTR ART.10,5.
- Em 25 às 16 horas aterrou na parada da Unidade um ELI ALOUETTE pilotado pelo Capitão Godinho, que Informou encontrarem-se forças estacionadas em MONTEMOR-O-NOVO e no desvio da estrada parar ARAIOLOS (que mais tarde se soube pertencerem as primeiras ao R.1. 13 e as últimas ao .R.1.16).
- Em 26 às 22.30 horas, apresentou-se nesta E.P.A. o Major Art. Rui Folhadela de M. Rebelo, que assumiu o Comando Int. da Unidade.

Assinaturas


MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS
ESCOLA PRATICA DE ARTILHARIA

Informação relativa aos:
- CORONEL DE ART. MÁRIO BELO DE CARVALHO
- TEN-CORONEL DE. ART. JOAO MANUEL GRAÇA PEREIRA DO NASCIMENTO

1. O primeiro oficial, que desempenhava as funções de Comandante desta Unidade, muito embora conhecedor da existência do Movimento, alheou-se sempre dele, mostrando-se incrédulo e disposto a fazer o que estivesse ao seu alcance para gorar os nossos intentos. Havia sido colocado aqui por ser amigo pessoal e elemento de confiança do ex-Secretário de Estado do Exército, coronel Viana de Lemos, pois que não era possuidor de quaisquer qualidades especiais que o creditassem como Comandante da maior e mais importante unidade de Artilharia do País. Tal facto está segundo Julgamos, na base da sua promoção a coronel, em que havia sido preterido em consequência de punição aplicada na Guiné pelo então Comandante-Chefe, General Spínola, quando ali comandou um BART situada em Catió. Em fins de Março promoveu a transferência para o RAL 4 do Capitão de Art. Luís Manuel Branco Domingues, oficial mais antigo desta E.P.A., membro do M.F.A., com o que julgava «sanear» a Unidade.
Na base desta atitude está o facto daquele oficial, em nome de todos os camaradas do O.P. da Arma, e numa reunião presidida pelo Comandante, ter manifestado solidariedade com os oficiais que não embarcaram para o CTI Açores. Durante esta tomada de, posição
foi-lhe pedido que de tal facto fosse dado conhecimento imediato à RME, o que. segundo oficiais colocados naquele O.P., não foi feito.
Mais tarde pretendeu ainda afastar o Tenente Sousa. por saber que constituía elemento de ligação. não havendo tomado, que se saiba. qualquer atitude contra outro elemento de ligação (Capitão Patrício) por este ter sido entretanto mobilizado para o CTI Guiné. Pelos factos apontados. não pôde deixar de ser detido, o que foi conseguido sem resistência. De resto. trata-se de uma personalidade fraca e um tanto abúlica. Pelo exposto, considera-se elemento que não interessa ao serviço activo do Exército.
2. O segundo oficial. 2.° Comandante, é o que se poderá chamar um «legalista». Rígido, desconfiado. teimoso. e cegamente determinado. era elemento considerado perigoso, tendo mesmo depois de detido. afirmado que,. se não tivesse sido colhido de surpresa, teria reagido violentamente, para o que se havia armado de pistola-metralhadora.
Tinha tomado disposições tendentes a fazer abortar o Movimento. Encontrava-se perfeitamente integrado nas ideias do Comandante. Elemento com espírito negativo. pensa-se que poderá eventualmente exercer represálias. Foi detido sem resistência. por não lhe ter sido dada oportunidade. Porque não exerceu qualquer acção relevante nesta Escola. não se lhe reconhecem qualidades especiais. e ainda pelos factos apontados, é nossa opinião não interessar ao serviço activo do Exército (1).
3. Julga-se ainda de interesse registar uma apreciação aos seguintes oficiais:
a. Coronel Art. José Luís de Azevedo Pereira Machado. Anterior Comandante desta Escola. revelou-se sempre elemento altamente negativo. Trata-se de um oficial extremamente ligado ao anterior regime. b. Ten-Coronel Art. José António Cardoso de Almeida. Anterior 2.° Comandante, é elemento fortemente. reaccionário. Sempre se mostrou contrário aos objectivos do Movimento das F.A. c. Major de Art. Comandos Júlio Faria Ribeiro de Oliveira. Antigo Comandante de Grupo. é elemento pró-General Kaúlza de Arriaga .. Revelou-se contrário ao Movimento, pelo qual manifestou no entanto certo Interesse em Dezembro último. por julgar ligado ao referido sr. General.
Ouartel em Vendas Novas, 3 de Maio de 1974.
a) Assinaturas
 

 



ESCOLA PRÁTICA DE ADMINISTRAÇÃO MILITAR

RELATÓRIO - Dia 25 de Abril

Este relatório pretende ser uma relacionação de factos, pessoas e situações, englobadas no Movimento das Forças Armadas que culminaram com a participação activa da Escola Prática de Administração Militar nas Forças Armadas que derrubaram a ditadura fascista em 25 de Abril de 1974.
Foi redigido pelo Sr. Cap. do S.A.M. Teófilo da Silva Bento.
Outras comparticipações poderão ser dadas por oficiais da EPAM e haveria toda a vantagem nessa comparticipação possibilitando melhor esclarecimento e aprofundando determinados pormenores.

1 - Generalidades

Durante o 2.º semestre do ano findo foram sendo colocados na EPAM oficiais do QP que em breve estabeleciam diálogo relacionado com o que então já se chamava Movimento dos Capitães. As roturas com o sistema já eram perfeitamente observáveis mesmo para aqueles com menor formação política. Em breve se estabeleceu comunicação ideológica perfeitamente aderente às perspectivas que se iam adivinhando na evolução do Movimento.
Inicialmente, na perspectiva de solidariedade com os camaradas das Armas afectados pelo D. L. 353/73, efectuaram-se algumas reuniões dentro do Serviço de Administração Militar com presenças mais ou menos significativas de Majores, Capitães, Tenentes e Alferes, e 2 Coronéis, que culminaram na estruturação de um processo de actuação conivente com os princípios enunciados na reunião de Óbidos. Agora já com formas de actuação perfeitamente definidas - elementos da Comissão Coordenadora, elementos de ligação e delegados de Unidades -, procurou-se acompanhar a evolução dos acontecimentos mantendo sempre bem altos o espírito de colaboração projectado num futuro que se adivinhava, procurando o aliciamento de novos oficiais do QP. e do QC para a causa comum, finalizando numa actuação que em nada desmereceu a E.P.A.M.
2 - Iniciação do processo
a) Após contactos já tidos no Ultramar com elementos iniciadores do Movimento, ou contactos que se foram estabelecendo em reuniões parcelares na Metrópole, foram sendo colocados na E.P.A.M. os oficiais do QP:
- Capitão Teófilo da Silva Bento;
- Capitão Carlos Joaquim Gaspar;
- Capitão Filipe Henriques;
- Capitão Jesus;
- Tenente Matos Borges:
- Tenente Santos Silva;
- Tenente Félix Pereira;
- Tenente Ávila;
- Tenente Cerdeira;
- Alferes Geraldes;
- Alferes Martins;

b) Foi indicado o Alferes Geraldes como elemento para a Comissão Coordenadora e o Capitão Teófilo Bento como delegado da Unidade. Através destes oficiais eram informados os restantes oficiais do Q.P. da evolução do Movimento, desfazendo dúvidas e interrogações naqueles menos confiantes.
Entretanto faziam-se estudos psicológicos dos restantes militares, auscultando-se fundamentalmente oficiais milicianos e sargentos milicianos e até os próprios cadetes onde em aulas de Educação Militar se provocavam diálogos que permitiam colher opiniões relativas ao Movimento dos Capitães como então eram conhecidos.
Os Sargentos do QP de Escola foram mantidos afastados dos processos dadas as suas características específicas, agravadas pelo último aumento de vencimentos, embora num curso de actualização a 1.º Sargentos e 2.º Sargentos do S.A.M. dado em Março/74 fossem abordados tendo a receptividade sido quase absoluta devido, com certeza, por serem mais jovens.
Referência seja feita ao 1.º Sargento Bargão da D.S.I. que era mal olhado no eléctrico porque lia a “República”.
O Comando nunca foi abordado directamente, embora através de conversas à mesa se verificasse a sua não adesão. Todavia não teve medidas discricionárias para oficiais que sabia ligados ao Movimento, mais parecendo que estaria a jogar com um pau de dois bicos.
O Comando foi em princípio de Março alterado.
Sendo posteriormente nomeado efectivamente o Coronel Caldas Fidalgo 1.° Comandante, anteriormente 2.° Comandante e o Major Nogueira da Silva que exercia as funções de Director da Instrução passou a exercer cumulativamente as funções de 2.° Comandante interino. Dever-se-á referir que o Major Nogueira da Silva poderia ser contactado; aliás mostrou-se-Ihe documentos e circulares informativas do Movimento englobando-o no Movimento e só não aconteceu dadas as suas funções de 2.° Comandante que comprometeriam um processo de descontinuidade no Comando da Unidade que se pretendia fosse bem vincado quando acontecesse o golpe.

c) Manifestações na Beira, Portugal e o Futuro, exonerações dos generais Spínola e Costa Gomes, manifestação dos generais, discurso de M. Caetano na Assembleia aceleraram nitidamente o processo. O Plenário de Oficiais em Cascais define concretamente linhas orientadoras do Movimento agora englobando os 3 ramos das Forças Armadas num processo irreversível e os oficiais do Q.P. da Escola Prática bem cientes estavam disso.
Embora sem dados concretos para actuação da E.P.A.M. afinam-se as estimativas já elaboradas de meios, em pessoal e material, e definem-se ordens de operações individuais para oficiais do Q.P. que ficam na posse do oficial delegado da Unidade distribuição imediata logo que a oportunidade aparecesse.
Jogando ainda no campo das hipóteses, punham-se como objectivos a tomada da unidade, neutralização das vias de acesso a Lisboa Norte pela Alameda Linhas de Torres, e hipóteses de actuação junto das Esquadras da PSP de Campo e Lumiar.
Prevenções surgidas na última semana de Março motivadas por transferência e iniciativas de outros oficiais, obrigam-nos a rever alguns conceitos de actuação para o caso de necessidade de tomar opções em tempo de prevenção; ao mesmo tempo esclarecem-se melhor as posições do Comando e de oficiais milicianos principalmente Aspirantes.

d) Deverá assinalar-se com a melhor referência a colaboração prestada por Oficiais e Sargentos Milicianos e a forma como foram assimilados. Dos oficiais milicianos colocados na E.P.A.M. apenas é de referir os nomes dos Asp. Oficial Mil. Gomes, Seixas, Martins, cuja adesão poderia ser solicitada. Os restantes Tenentes, Alferes e Aspirantes, embora não manifestassem opiniões contrárias, com excepção para o Aspirante Oficial Miliciano Leão, perfeitamente integrado nas ideias situacionistas, também não poderiam ser activistas mas mobilizáveis na altura própria.
Dos Furriéis Milicianos poder-se-ia contar com 70 a 80 % de adesões.
Nos cursos de cadetes e instruendos do C.S.M. aproveitavam-se as aulas, principalmente nas instruções de Administração de subunidades e Educação Militar, para auscultar opiniões fazendo referências ao Movimento, provocando (ou travando, conforme as conveniências) a discussão. Deverá notar-se que os cadetes e instruendos, podendo constituir uma força actuante bastante importante, poderia não ser utilizada, pois no final da instrução eram distribuídos por outras Unidades. Todavia, do penúltimo curso, conseguiu-se um razoável lote de Aspirantes Milicianos e Cabos Milicianos dos cursos que continuaram em estágio, logo se dispondo a actuar na primeira linha.
Referência especial aos Aspirantes Milicianos António Reis, Videira, Pires, etc.

3 - Levantamento das Caldas da Rainha

Após abrandamento das situações de prevenção com praticamente todo o pessoal esgotado, sabendo-se já que tinha abordado a possibilidade de uma acção por falta da adesão dos Para-quedistas, inesperadamente são mandados recolher os oficiais da E.P.A.M. na madrugada de 16 de Março de 74.
As informações são mínimas e as decisões a tomar difíceis. O Alferes Geraldes informa que os Comandos de Lamego avançam sobre o Porto e o Quartel das Caldas sobre Lisboa, contando com a adesão das outras Escolas Práticas. O Comando da Unidade Informa que uma reduzida coluna marcha sobre Lisboa. Através de telefone civil e em claro são dadas Instruções rigorosas de segurança, proibindo a entrada na Unidade de Oficiais estranhos à mesma, com excepção do Governador Militar.
Mandam armar uma Companhia. Gera-se uma certa confusão, não se sabendo qual a actuação a seguir. Os oficiais do Q.P. presentes são poucos e os do Q.C. também poucos; apenas manifestam medo. Sargentos colaborantes com o Comando. Forma-se e municia-se com certa rapidez uma Companhia pronta a actuar sem se decidir qual a linha a seguir - ou às ordens governamentais ou às ordens do Movimento, pois tanto um bloco como o outro estão com Informações limitadíssimas.
O Coronel Caldas Fidalgo reúne os oficiais e dá ideia da situação minimizando-a ao avanço de uma pequena coluna sobre Lisboa, indicando que a nossa Companhia iria instalar-se na estrada de Loures e Odivelas para suster o seu avanço, caso pretendesse penetrar por esses acessos. Antes de ser nomeado pessoal para comandar e enquadrar essa Companhia, o Cap. Bento intervém no sentido dos oficiais ficarem bem conscientes da situação e missão em que o Comando da E.P.A.M. vai colaborar, dando relevo ao facto das forças que avançam sobre Lisboa não poderem ser menosprezadas e o Governo não dispor tantas forças para efectuar a retaliação, pois pretende utilizar forças não preparadas para combate como é o caso da E.P.A.M., consideradas essencialmente de reserva.
Os oficiais não se manifestam. Os do Q.P. esperam ordens do oficial delegado da Unidade. Os do Q.C. pertencem àquele grupo Que dará apoio ao bloco mais forte. O Comandante pede voluntários e destes é nomeado o Cap. Bento para comandar a Companhia que se desdobra em duas partes, ficando uma parte sob o comando do Tenente Santos Silva.
Estes dois oficiais combinam entre si que apenas se darão tiros para o ar no caso de aparecerem forças limitadas para se retardar o avanço e definir a situação. Caso as forças apresentem certa grandeza. então garante-se a passagem e colocar-se-iam sob as suas ordens.
A Companhia sai do Quartel e é instalada sem que tenha havido qualquer problema.
São transmitidas ordens aos soldados para só dispararem e para o ar após ordens do Comandante de Companhia. Fica-se estacionado durante umas 7 horas [das 5 às 12) até se tomar conhecimento que a coluna das Caldas tinha recolhido a quartéis. É interessante notar que a população civil mal se apercebeu da gravidade da situação, pois admitiu tratar-se de um exercício militar.

4 - 25 de Abril

a) A necessidade de organização e planeamento a curto prazo Impõe-se ao Movimento para uma acção de sucesso. As informações obtidas da experiência das Caldas podem ser criteriosamente aproveitadas. Não restam dúvidas que as forças a combater, sem ser menosprezadas, são Inferiores às mobilizáveis pelo Movimento Uma acção baseada no factor surpresa ainda é possível, pois as estruturas governamentais não acreditam na força do Movimento.
Um plano de operações começa a desenhar-se após contactos entre o então Major Otelo e delegados de Unidades e saneadas as hesitações de Paraquedistas.
A participação activa de oficiais Milicianos começa a ser uma realidade após uma perspectivação de um Movimento de Oficiais Milicianos paralelo ao Movimento existente iniciando-se na E.P.A.M. com o Asp. Of. Mil. António Reis e outros oficiais do mesmo curso, alastrando em breve a outras Unidades, chegando a abranger uns 15 quartéis. Os contactos entre os dois Movimentos processar-se-iam a nível de Unidades e Comissões Coordenadoras, sendo todavia as acções superintendidas pelo Movimento dos Oficias do Q.P.

b) A E.P.A.M. garante desde a primeira hora o domínio da Unidade e logo que lhe é destinado o objectivo da R.T.P. não tem quaisquer dúvidas em garantir a sua ocupação, pedindo todavia a garantia de ocupação das antenas de Monsanto. Recusa forças de auxílio da E.P.I.
Tenta-se aliciar o 2.° G. CAM, mas não se consegue em virtude do 1.º Comte. Major Barros recusar o Movimento e o 2.0 Comte. Major Azevedo não garantir o domínio da Unidade: todavia através do Cap. Filipe Henriques poder-se-á prever a sua neutralidade.

c) Elabora-se um plano de operações para domínio da Unidade e saída de uma coluna para ocupação da R.T.P. com base nos oficiais do Q.P. e informações do Interior dos estúdios obtidas através de um empregado, tendo colaborado também o locutor Adelino Gomes e por observação directa do exterior, assim como Informações técnicas prevendo-se a hipótese de não colaboração dos empregados, obtidas através do Cap. de Eng. Guerra. Em 23 e 24, em reunião em casa do Cap. Bento, acertam-se todos os pormenores e distribuem-se funções específicas, concordando-se em que o Cap. Gaspar comandaria o quartel e o Cap. Bento a coluna de ocupação. Entretanto um civil - Amílcar dos Santos Ferreira, cunhado do Cap. Bento, recentemente vindo dos Comandos de Moçambique colaboraria como informador colocado no exterior do quartel perto da R.T.P. enquanto não se verificasse a saída da coluna.
Planeia-se de forma a ocupação se verificar à hora prevista no plano de operações geral, isto é, às 03:00 de 25 de Abril de 74, prevendo-se a hipótese de cerco no caso dos estúdios já estarem ocupados por forças do IN.

d) Após ouvir o sinal transmitido através dos E. Associados, convergem para a E.P.A.M. os oficiais do Q.P. Fardam-se e armam-se sem despertar suspeitas.
Entretanto já se tinha passado pelo 2. G.C.A.M. onde se encontrava de oficial de dia o Cap. Filipe Henriques, a que se pediu a neutralidade da Unidade a que ele acedeu sem problemas.
Inicialmente o objectivo R.T.P. tinha sido cometido aos Páras que recusaram por grandes dificuldades na sua conquista só susceptíveis de serem superadas após profundo do objectivo.
Depois da mensagem de confirmação ser irradiada, entra-se na sala de oficiais e dá-se voz de prisão ao oficial de dia, Alf. Mil. Pinto Bessa e Oficial de prevenção Asp. Of. Mil. Leão. Este oficial já estava sob vigilância do Alf. Geraldes, em virtude de se suspeitar manter relações com a D.G.S. - PIDE.
O Cap. Gaspar assume as funções provisoriamente de oficial de dia. Toma-se conta da central rádio que fica a cargo do Tenente Félix Pereira e paióis a cargo do Tenente Santos Silva.
Através do telefone e por código dão-se indicações a um grupo de 14 Asp. Mil. Estagiários que manifestaram a vontade de colaborar embora não soubessem quando para entrarem no quartel. Espera-se a última abertura do portão das 01:30 horas. São acordados todos os oficiais e sargentos e manda-se armar todos os soldados. Apenas se explica a situação aos oficiais e sargentos. Destes, os não aderentes recolhem à biblioteca sob prisão. Em virtude de um panfleto do PCP suspeitava-se que o 1.0 Sarg. Borges Pires e um outro Furriel fossem informadores da D.G.S. De 15 em 15 minutos o civil Amílcar Ferreira vai informando que no exterior tudo decorre normalmente.
Organiza-se a coluna composta por 2 viaturas ligeiras e 3 pesadas. À última da hora substitui-se o jeep do Comando por um “furgon” por ser mais fácil a saída. Neste furgon embarcou o Cap. Bento, Tenente Cerdeiro e Alferes Geraldes e um Cabo Mil.
Numa viatura pesada o Tenente Santos Silva, monta a seguir o Alferes Martins, numa terceira o Tenente Matos Borges com um jeep atrás e com a missão de penetrarem nos estúdios por outro local, prevendo a hipótese de cerco. A coluna sal às 02:30 armada e municiada com espingardas automáticas G3, metralhadoras Bren e lança-granadas foguetes e 1 rádio local com um efectivo de cerca de 100 homens. No quartel fica o Cap. Gaspar, Cap. Jesus, Ten. Félix Pereira e Ten. Ávila e Alferes do Q.P.

e) Às 03:25 de 25 de Abril de 74 - hora Indicada no Plano de Operações - eram ocupados os estúdios da R.T.P. no Lumiar, após serem presos e desarmados 3 guardas da P.S.P. Um deles ainda fez menção de sacar da pistola, mas conteve-se a tempo, pois o Tenente Cerdeira e Alferes Geraldes por fracção de segundos não o alvejaram.
Imediatamente se monta um dispositivo de segurança, comunicando-se a ocupação ao posto de comando.
Entre as 04:05 apareceram nos estúdios uma equipa de filmagens jornalistas e guardas da P.S.P. que vêm render os anteriores ficando todos detidos numa sala.
Por volta das 04:00 apercebemo-nos que estamos a ser cercados por forças da P.S.P. e vigiados por elementos da PIDE-DGS.
Por megafone pede-se para retirarem porque os estúdios estavam ocupados por tropa. Como não se consegue, dá-se ordem aos soldados para dispararem uma rajada para o ar. Em face disso a P.S.P. dispersa e não causa mais problemas.
Começam a aparecer empregados da Televisão; apenas se autoriza a entrada de elementos estritamente necessários a pôr a emissão no ar. Não seguimos o conselho que nos tinha sido dado para pedir ao Cap. Barbeitos uma lista de funcionários para o fim em vista, por também nos terem dito que não era de depositar confiança no Cap. Barbeitos.
De qualquer das formas às 11:00 já possuíamos o número suficiente de técnicos para fazer TV. Apenas se punha em dúvida se o emissor de Monsanto estava ocupado. O P.C. garantia que sim. Tal não se verificou quando se pretendeu à hora normal colocar a mira no ar.
Ainda se desconfiou de sabotagem interna, mas após reunir todos os empregados da TV numa sala verifica-se que efectivamente o problema residia em Monsanto. Aliás, deve-se referir que todos os empregados se prestaram a máxima colaboração com especial relevo para Alfredo Tropa, Fialho Gouveia, Louro de Sousa.
A emissão que aparece no écran é ainda dos estúdios do Porto. Tenta-se comunicar com Monsanto que não dá cavaco desconfiando-se em breve da existência do Cap. Alarcão a controlar a emissão.
Entretanto o P.C. continuava a garantir-nos o controle das antenas de Monsanto.
Alguém se lembra de entrar em contacto com o emissor do Porto. Efectivamente os estúdios do Porto estavam ocupados por forças amigas estando lá um Tenente dos Comandos. Elabora-se um comunicado; dita-se por telefone pedindo-se para cortar a emissão devendo passar-se Imediatamente a projectar slides do Porto e um locutor ler o comunicado.
Como nota pitoresca relata-se que estando-se à espera que imediatamente aparecesse o corte da emissão em curso e como tal não se verificasse após uns minutos volta-se a telefonar para o Porto inquirindo-se ao Tenente dos Comandos porque ainda não se estava a dar cumprimento ao solicitado. Responde-nos que eram só mais dois minutos para o programa terminar. Pouco faltou para fulminar o tenente pelo telefone ...
Já se previa o slide foi projectado por inteiro mas a miragem do locutor a meio pelo Cap. Alarcão em Monsanto e à segunda vez mal se viu o locutor.
Pede-se ao Porto para pôr o comunicado em cima do slide e então a televisão avariou definitivamente.
Entretanto o P.C. garantiu-nos que estava a preparar uma equipa de Comandos para resolver o problema de Monsanto.
Como tal demorasse em acontecer, o Tenente Cerdeira, Alferes Geraldes e Cabo Miliciano Louro dispõem-se a fazer nem que operação suicida para ocupar Monsanto, apenas esperam ordens do Cap. Bento. Quem acaba por resolver o problema é o funcionário da R.T.P. Louro de Sousa que em emissão directa para o Cap. Alarcão o convence a ceder-nos o controle da emissão.
Assim, pelas 19:00 dávamos gritos de alegria com a possibilidade de emitir para totalmente ao serviço do M.F.A..

f) A EPAM ficou sob o comando do Cap. Gaspar, dispondo apenas dos soldados vitais ao serviço da Unidade e dos cadetes e instruendos CIOSM. Logo que lhe foi possível enviou uma ração fria e por volta do meio-dia os soldados cadetes substituíram os soldados que se encontravam exaustos.
Às 08:00 apresentou-se o Coronel Caldas Fidalgo a quem se lhe negou o comando da Unidade. dando-lhe a possibilidade de voltar para casa ou, se pretendesse entrar na Unidade. Optou pela última hipótese, mas às 12:00 preferiu sair, pois o comando já não lhe pertencia.
Entretanto aparece o Coronel Marcelino Marques, a quem o Cap. Gaspar entrega o comando após consultar os outros oficiais, originando-se assim um dos primeiros democratização nas F.A. Pois Igualmente as forças que haviam saído para ocupar a R.T.P. também aceitaram o comando do Coronel Marcelino Marques, decisões a serem tomadas em conjunto e democraticamente.
g) Os dias seguintes de gestão da R.T.P. foram relativamente conturbados por falta de meios e saneamentos imediatos por diversas facções de pessoal que se atacava entre si. Todavia, mesmo sem directivas e com certa improvisação, conseguiu-se um certo equilíbrio das forças em presença, aproveitando-se o que melhor se enquadrava no espírito do Programa do MFA.
Na generalidade todos os se dispuseram a acatar as ordens do comando ad hoc estabelecido, sendo apenas efectuada a prisão do Senhor Cap. Alarcão em virtude da obstrução deliberada que efectuou à emissão do dia 25, excedendo em multo as funções que cometidas, conforme participação na altura entregue ao comando da EPAM.
Emitiram-se duas ordens de serviço internas, conforme cópias anexas.
Após se conseguir pôr os serviços a funcionar normalmente com os lugares directivos controlados directamente e serviços fundamentais controlados por Aspirantes a ocorrer aos diversos problemas já enunciados dentro da R.T.P. , pensou-se na criação de grupos de trabalho, tal já não foi possível pois no dia 28 à noite, inexplicavelmente aparece o Sr. Cap. Barbeitos com uma ordem no bolso assinada por Sua Excelência o General Spínola (conforme fotocópia), passando a ser o responsável pela R.T.P.
A partir deste momento o Cap. Bento retirou-se da R.T.P. ficando forças da E.P.A.M. e 2.° Grupo a garantir a segurança por mais alguns dias.

Lisboa, 3 de Janeiro de 1975

TEÓFILO DA SILVA BENTO
Capitão S.A.M.
 

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